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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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Multiversal, de José Estêvão Cruz – a poesia e a sua circunstância

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A poesia de circunstância, geralmente seguidora do cânone convencional da rima, da métrica e genericamente denotativa, sempre desempenhou um papel de relevo na afirmação identitária da comunidade e, se os tempos agora são outros, ela não deixa de constituir, em momentos de celebração, um factor suplementar de coesão na liturgia da festa. Entende-se, assim, que uma “oração de sapiência” da Confraria do Atum (!), proferida em 3 de Março de 2018, no Centro Cultural António Aleixo de VRSA, possa integrar o multiversal, último livro de José Estêvão Cruz.

 

O volume arranca com uma composição de inspiração camoniana vertida em estrofes de oitava rima, “estilo grandiloco e corrente”, a imitar a epopeia nacional, ainda que o autor prescinda da invocação às ninfas, que não têm as do Guadiana a fama e o reconhecimento de que gozam as Tágides. A habilidade versificatória e a soma de conhecimentos sobre o ciclo de vida do atum não deixam dúvidas e espraiam-se pelos demais poemas do primeiro painel, acrescentando-se-lhes o saber da vida dos que vivem das fainas do mar, tudo isto numa morfossintaxe sacudida e prenhe dum falar que inevitavelmente lembra o Raul Brandão de Os Pescadores.

 

Voltada esta página, com “Multiverso” e a radical mudança de estilo, o leitor encontra a provável resposta à dúvida sobre o significado do título do volume, já que, se “versal”, segundo o dicionário, denota “letra maiúscula, capital, capitular” – o que não parece hipótese interpretativa fiável –, o sujeito afirma-se, neste poema, capaz de exercer o seu múnus poético de formas múltiplas: “de enxada na mão”, “a fazer uma bomba”, “de cruz em riste”. E, de facto, a variedade de formas e de temas confirma a “multiversalidade” do volume, primeiro muito apegado a referências geográficas locais (praia, rio, doca, …), depois, progressivamente, afastado dessa concretude e içado para voos mais próprios da reflexão sobre o ser e a condição humana, o homem e a sua circunstância, o amor, enfim.

 

É no termo desta caminhada para uma linguagem transgressora dos vínculos significativos da referencialidade que surge aquilo que já é um universo desafiante das leis da física e do raciocínio silogístico: “Não sei / em qual Outono / ficaram escondidas / as pérolas do teu olhar”. Estamos, enfim, no prólogo dessa aventura a que se chama poesia.

 

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