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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

O CARRO DESCAIU

O carro descaiu
Compras feitas, aguardo junto ao stop do parque de estacionamento do supermercado que todos os carros em movimento dentro da rotunda passem para finalmente arrancar. São muitos e há agora outro condutor atrás de mim que também aguarda. Ufa! Finalmente! Arranco. Ouço uma buzina. Agora que acabou a espera é que buzinas? Talvez não fosse para mim. Em frente. Ah, mas vejo agora pelo retrovisor que o fulano que me segue faz gestos na minha direcção. Que será? Ponho-me à esquerda, porque vou voltar à esquerda na próxima rotunda. Ele posiciona-se à direita, a meu lado. Faz gestos que não entendo. Talvez uma das minhas portas mal fechada. Ou um pneu em baixo. Mas ele parece irritado e insiste. Contorno a rotunda e ele segue-me. Na avenida, põe-se novamente a meu lado e eu abro a janela. Ele também. Vai sozinho no carro, mas de máscara. Não entendo o que quer! Não ouviu apitar? Quando estava ali parado, deixou o carro descair e bateu. Encoste aí à frente. Sim, eu encosto. Encostamos ambos. Enquanto eu ponho a máscara, ele, que já a tinha antes, chega-se à minha janela. Repete: descaiu, bateu. É forte, não muito mais alto do que eu, e tem uma barba preta e farta de talibã a espreitar por todos os cantos da máscara. Eu saio do carro e vou ver o dele, atrás do meu. Uma cintilante viatura vermelha metalizada com ar de nova em folha. É de 2020, diz-me, e mostra-me um arranhãozito de cinquenta milímetros de comprimento por oito de largura no pára-choques. Está a ver aqui o seu pára-choques? Também tem aqui esta marca. Eu sei que os meus pára-choques têm marcas, manchas e arranhões, e que é mesmo para isso que eles servem, mas mantenho-me expectante. Esta agora! É que não me apercebi de ter batido em nada de sólido, nem me parece que tenha deixado o carro descair. De resto, nem sequer há no local do stop um declive que pudesse apanhar-me de pé desatento e indiferente à presença do travão ali tão perto. Que maçada. Peço-lhe imensa desculpa, digo-lhe, é que não me apercebi de nada, garanto-lhe, e fico esperando que uma desculpa tão imensa e tão sincero alheamento da ocorrência sejam suficientes para apagar o arranhãozito, ou pelo menos para o deixar lá ficar sem efeitos traumáticos no proprietário de tão notável viatura. Mas bolas! Eu que, em cinquenta e cinco anos de condução, tive dois ou três pequenos choques. Choques?! Quais choques! Umas raspadelas de nada, quase uns afagos ternurentos. Bolas! Bolas! Bolas! Como é que quer fazer?, diz-me o talibã. Vou-lhe dar o meu contacto, retruco, procurando ter tempo para pensar no assunto. Ou chamamos a polícia, sugere. Eu vou ser franco, diz-me logo a seguir. E eu espero que sim, que seja franco, penso eu cá para comigo. Isto se for para o seguro, já sabe como é, o senhor é que é prejudicado: fazem a peritagem, o carro vai para a marca e substituem o pára-choques, que fica por setecentos e cinquenta euros; se for a uma oficina, pedem-lhe trezentos e cinquenta euros pela pintura, mas eu tenho um amigo que me faz isso por duzentos e trinta euros. É consigo. Eu não lhe vou pedir duzentos e trinta euros. O senhor dá-me duzentos euros e poupa as maçadas do seguro. Não se fala mais no assunto. Que diabo! Preciso de tempo para pensar no que está a acontecer. Há quem seja capaz de reflectir e de chegar a uma conclusão sábia mesmo no meio da tormenta. Eu não. Preciso de me afastar um pouco, olhar para dentro de mim, trazer à memória tudo o que foi dito, recapitular, ver o filme dos acontecimentos, como sói dizer-se. Assim, raios, não é que me apeteça desfazer-me de duzentos euros num abrir e fechar de olhos e por uma coisa de nada, mas se o homem tem razão? Se eu deixei mesmo o carro descair e bater no dele? Olhe, decido-me: não tenho aqui duzentos euros comigo. Há ali na esquina uma caixa multibanco, diz-me o ofendido. Pois, mas ali não podemos estacionar. Venha atrás de mim até ao parque de estacionamento daquele outro supermercado; estacionamos lá e tratamos disso. Está bem, anui. E, já que anui, disponho de uns quatrocentos metros de avenida, mais uns trinta de nova rotunda e outros tantos de acessos para pensar no assunto sem testemunhas da minha cogitação. Entro no parque e estaciono, mas o reclamante dá meia volta, estaciona do lado de fora, no acesso, já voltado para a avenida por onde mais tarde seguirá viagem. Espero por ele à entrada do supermercado, onde há gente que entra e que sai. Nos últimos quatrocentos e sessenta metros, pensei naquela factura que, generosa e degressivamente, passara de setecentos e cinquenta para trezentos e cinquenta, daí para duzentos e trinta, até acabar nuns redondos duzentos euros de reparação. Admirável aquela capacidade orçamentista! Invejável aquele espírito prático, revelador de estreita familiaridade com o real quotidiano! Não vou alinhar consigo, digo-lhe, e ele não consegue esconder um ligeiro espanto. Então o que fazemos? Vou-me embora assim, sem nada? Estou aqui a perder tempo e tenho lá em casa a minha avó com Alzheimer que já se quis atirar pela janela. Vá, dê-me cento e cinquenta euros; talvez eu consiga arranjar aquilo. Não quer?! Chamamos a polícia! Mas eu, moita-carrasco. Nem cem euros? E eu começo a ceder à tentação de lhe passar vinte euros para as mãos. Aquela perda de tempo… aquele empenho todo… Talvez dez euros. Então quer que fiquemos assim. Está bem. Felicidades para si. E, dizendo isto, aponta-me o punho fechado para o cumprimento agora em uso. Fique bem, digo-lhe eu. Sem toque de punho. Se ele tivesse insistido, ter-lhe-ia pago um café.

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