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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

O escabroso em Literatura

 

O Complexo de Portnoy, P. Roth (1).jpg

Lolita, V. Nabokov (1).jpg

 

Na Ásia, para onde tinha sido levado por um questor, quando prestava serviço militar, instalei-me numa hospedaria, em Pérgamo. Estava muito satisfeito, não só porque a casa era muito elegante, mas porque o hospedeiro tinha um filho de grande beleza e eu meditava um plano para me tornar seu amante, a ocultas do pai. Sempre que à mesa se discutia o amor dos belos rapazes, indignava-me com tanta violência, recusava-me tão severamente a dar ouvidos a essas conversas indecentes que a mãe, sobretudo, considerava-me um dos sete sábios. A tal ponto que me incumbiram de acompanhar o jovem ao ginásio, de vigiar os seus estudos, de o instruir e aconselhar, zelando para que nenhum sedutor fosse admitido em casa.” O Satíricon, Petronio[i]

 

A aproximação de dois romances tão “especiais”, passe a vacuidade do adjectivo, quanto o são Lolita, de Vladimir Nabokov, e O Complexo de Portnoy, de Philip Roth, romances em que a temática sexual irrompe como força avassaladora bem demonstrativa dessa “energia fundamental do ser vivo” que é a libido, suscita a problematização do papel da linguagem na percepção do indecoroso em Literatura. Há, com efeito, uma diferença muito significativa entre as duas obras no que respeita ao uso que os respectivos autores fazem do léxico, mas importa verificar até que ponto o seu afastamento lexical determina uma substancial diferença na percepção que o leitor tem do escabroso, admitindo-se que tal designação é apropriada para catalogar o conteúdo de ambos.

O tema daria para uma tese de doutoramento. Não se trata aqui, porém, nem de fazer (mais) uma história do género, nem de dirimir a ambiguidade que, ao longo dos tempos, tem acompanhado a definição dos termos com que é habitual classificar-se as obras em que sobreleva tal temática, desideratos que a indisfarçável impreparação do autor torna inalcançáveis.

As definições que os dicionários dão de “erotismo” têm uma amplitude semântica tal que recobre quase todo o leque de possibilidades que se oferecem no âmbito das experiências e comportamentos sexuais: desde a vaga sensualidade emergente dos sentidos até à devassidão e libertinagem, passando pela voluptuosidade, pela lubricidade, pela lascívia, pela luxúria, tudo parece caber no conceito de erotismo, que, assim, fagocita o próprio conceito de pornografia, como atentado ao pudor e à moral, sendo de presumir que moral e pudor remetem para conceitos estritamente vinculados ao tempo ‒ que, por definição, sempre flui.

Por outro lado, cada um dos utilizadores da palavra dá-lhe a extensão que a sua sensibilidade autoriza. Se, para o pudibundo e não só, o erótico está na estreita dependência da simples sugestão e se anula na passagem desta à exibição, para outros, mais do que a exibição, será a ostentação provocatória a marcar a fronteira entre o erótico e o pornográfico.

Segundo Jean-Jacques Pauvert, “foi considerada juridicamente ‘erótica’ durante muito tempo no ocidente toda a literatura:

  1. Que ofendesse os bons costumes (e/ou por algum tempo a religião);
  2. Cuja intenção ‘evidente’ fosse a de excitar as paixões sexuais;
  3. Que negasse ‘os princípios fundamentais da moral social, familiar ou individual’ (julgamento de Sade, 1955);
  4. Cuja linguagem, cenas, descrições, etc. fossem ‘indecentes’, ‘pornográficas, ‘licenciosas’ ou ‘obscenas’ (ou um outro qualificativo que correspondesse à impressão produzida)[2].

Para Alexandrian, “Hoje em dia, frente às mais infrenes produções literárias ou cinematográficas, em vez de se invocar a virtude como antigamente, pretende-se distinguir entre o erótico e o pornográfico. A nova forma da hipocrisia consiste em dizer: se este romance ou este filme fosse erótico, eu inclinar-me-ia diante da sua qualidade; mas é pornográfico, de modo que o rejeito com indignação. Um tal raciocínio é tanto mais estulto quanto ninguém consegue explicar a diferença aí entrevista. O que, aliás, não admira, pois não há diferença. A pornografia é a descrição pura e simples dos prazeres carnais; o erotismo é esta mesma descrição revalorizada em função de uma ideia do amor ou da vida social. Tudo o que é erótico é necessariamente pornográfico, com alguma coisa acrescida. É muito mais importante fazer a distinção entre o erótico e o obsceno. Neste caso, entende-se que o erotismo é tudo o que torna a carne desejável, a patenteia no seu esplendor ou na sua frescura, desperta uma impressão de saúde, de beleza, de jogo deleitável; ao passo que a obscenidade avilta a carne, lhe associa a sujidade, as mazelas, os gracejos escatológicos, as palavras indecentes.”[3]

No meio desta parafernália definitória, ganha vulto e consistência a fórmula umas vezes atribuída a Chris Marker, outras vezes a Alain Robbe-Grillet ou ainda a Breton[4] de que “a pornografia é o erotismo dos outros”. Nada mais verdadeiro. Jamais o nosso erotismo pessoal seria por cada um de nós identificado com a pornografia, sendo certo também que fazemos, em princípio, questão de o manter na esfera do estritamente privado.

Feito este intróito, com certeza excessivo para a natureza e alcance do que se lhe segue, vejamos, num rápido sobrevoo, como se nos apresenta a pulsão amorosa no romance de Roth, através de um curto excerto que talvez nem seja o mais desbragado, mas que permite aferir a presença de elementos pertinentes de análise:

“Então parou um táxi e fomos para o apartamento dela, onde ela tirou a roupa e disse: “Avança.”

A minha incredulidade! Como é que uma coisa daquelas me podia estar a acontecer! E o que eu comi! De repente, era como se a minha vida fizesse parte de um sonho lúbrico. Ali estava eu, lambendo finalmente a cona da estrela de todos os filmes pornográficos que tinha produzido a minha cabeça desde a primeira vez que pusera a mão na minha própria piça... «E agora eu», disse ela, «amor com amor se paga», e, doutor, essa desconhecida desatou a chupar-me com uma boca que devia ter andado nalguma universidade especial para aprender as coisas maravilhosas que sabia. Que achado, pensei, eu, ela sorve-o até à raiz! A goela em que eu fui cair! E falavas tu de oportunidades! E ao mesmo tempo: Sai daqui! Vai-te embora! Sabes lá quem é e do que é capaz esta criatura!”[5]

Que há de indecoroso neste passo do romance, um dos inúmeros que juncam a obra? Antes de mais, a própria descrição crua, ostensiva, da cena de sexo (naquela modalidade que Bill Clinton, em tempos, afirmou não ser sexo), cena essa que ocorre escassos minutos volvidos sobre o encontro inicial das personagens, perfeitas desconhecidas. Longe de procurar travestir o relacionamento sexual com o “manto diáfano da fantasia”, Roth escancara a porta da realidade e põe a descoberto a “nudez forte da verdade”. O léxico usado, remetendo sempre para o mesmo contexto, pertence, contudo, a duas categorias distintas: por um lado, verbos banais (“avançar”, “comer”, “chupar”) são investidos de forte conotação sexual; por outro, os genitais de ambos os sexos são designados pelos plebeísmos mais obscenos que os dicionários atestam.

A acção decorre a ritmo acelerado, vertida em períodos curtos, com várias frases exclamativas a traduzirem a torrente de emoções do narrador, que mantém um significativo distanciamento em relação à sua parceira, distanciamento esse patente na ironia da referência à “universidade especial” e, sobretudo, no confinamento da mulher à condição de “boca” e de “goela”.

Voltando a Alexandrian, parece pertinente equacionar aqui a eventual prevalência da obscenidade sobre o erotismo – sublinhe-se “equacionar” – já que a evolução dos costumes, até na banalização do palavrão, atenua consideravelmente o impacto do obsceno.

Mas compare-se com Lolita, num excerto que se julga representativo do nível geral de descodificação patente no romance:

“Comecei a chegar-me para ela, preparado para uma decepção e sabendo que seria melhor esperar, mas incapaz disso. A minha almofada cheirava aos seus cabelos. Fui-me chegando para o vulto vagamente luminoso da minha querida, parando ou recuando sempre que me parecia que se mexia ou estava prestes a mexer-se. Uma brisa do país das maravilhas começara a afectar os meus pensamentos, que pareciam alinhados em itálico, como se a superfície que os reflectia estivesse encrespada pelo fantasma da tal brisa. Uma e outra vez, a minha vigília enfraqueceu, o meu corpo agitado penetrou na esfera do sono para logo sair, e cheguei até a dar comigo a deixar-me embalar por um ressonar melancólico. Neblinas de ternura envolviam montanhas de desejo. De vez em quando, parecia-me que a presa encantada estava prestes a encontrar-se com o caçador encantado a meio do caminho, que o seu quadril se ia chegando para mim sob a areia macia de uma praia remota e fabulosa. Mas depois o seu vulto mexia-se e eu ficava com a certeza de que ela estava mais longe de mim do que nunca.”[6]

Aqui, todos os cuidados são poucos, e a aproximação faz-se por etapas (“comecei a chegar-me”, “fui-me chegando”), a fim de esconjurar a decepção. Os sentidos do olfacto e da visão são chamados a intervir, mas com moderação (o cheiro dos cabelos, “o vulto vagamente luminoso”). O pensamento do narrador e protagonista sofre o efeito da atmosfera lúbrica, oscila entre a vigília e o sono, e transpira onirismo. Finalmente, a decepção.

Que prevalecerá aqui – o erotismo ou a obscenidade?

Se fizermos de conta que ignoramos a identidade da “minha querida” e lhe atribuirmos uns hipotéticos dezoito anos, conviremos que há aqui um erotismo moderado, de bom-tom, matizado pela fantasia do grande escritor. Porém, logo que nos lembramos de que a Lolita ainda não completou doze anos de idade e que o seu “caçador encantado” é um quarentão, dificilmente poderemos deixar de considerar a cena descrita como obscena e pornográfica. Obscena e pornográfica, sem que haja no romance um único palavrão, uma única cena de sexo explícito, como aliás se refere no “prefácio” que o autor atribui a um tal John Ray Junior, doutor em Filosofia, e que explica cabalmente a inevitabilidade das cenas “afrodisíacas”, sem as quais não haveria romance, dado o seu carácter “estritamente funcional”, na perspectiva da consecução da “apoteose moral”:

“Considerado simplesmente como romance, Lolita trata de situações e emoções que permaneceriam irritantemente vagas para o leitor se a sua expressão se tivesse estiolado pelo recurso a evasivas banais. É verdade que não se encontra em todo o livro um único termo obsceno, de tal sorte que o robusto filisteu, condicionado pelas modernas convenções a aceitar sem repugnância a prodigalidade de palavras porcas de um romance banal, ficará absolutamente escandalizado com a sua ausência aqui. Se, no entanto, para tranquilidade da consciência desse paradoxal moralista, se tentasse diluir ou omitir cenas a que um certo tipo de mentalidade poderia chamar «afrodisíacas» (ver a tal respeito a monumental decisão proferida, em 6 de Dezembro de 1933, pelo meritíssimo juiz John M. Woolsey acerca de outro livro de linguagem muito mais franca e clara), o melhor seria desistir por completo da publicação de Lolita, pois as cenas que absurdamente se poderiam acoimar de prenhes de conteúdo sensual próprio são o mais estritamente funcionais possível no desenrolar de uma história trágica que se encaminha, inabalável e resolutamente, para nada menos do que uma apoteose moral. Os cínicos poderão dizer que a pornografia comercial afirma exactamente o mesmo e os entendidos poderão ripostar que a apaixonada confissão de H. H. é uma tempestade num tubo de ensaio; e que, pelo menos, doze por cento dos varões adultos americanos - cálculo «moderado», segundo a Dr.ª Blanche Schwarzmann (comunicação  verbal) - gozam anualmente, de uma maneira ou de outra, a experiência especial que H. H. descreve com tanto desespero, e que, se o nosso dementado diarista tivesse, no fatal Verão de 1947, consultado um psicoterapeuta competente, não haveria tragédia nenhuma ‒ mas, nesse caso, também não haveria este livro.”[7]

A literatura é sempre, de algum modo, o espelho de uma sociedade, seja porque intenta reflecti-la com o rigor fotográfico da tradição naturalista, seja porque o criador, necessariamente parte dessa sociedade, trilhando os caminhos da inovação, é impulsionado pelo ambiente que o rodeia ou por sentimentos de desgosto ou de rejeição para com esse ambiente. Através da sobrevalorização de um ou outro aspecto da realidade, o criador revela em que medida esta o afecta e, de caminho, dá-nos pistas sobre a sua idiossincrasia autoral. No caso destes dois romances, como certamente no caso de todos os grandes romances, e sem cair na armadilha de confundir a figura do autor com a do narrador, conjugam-se as vertentes do retrato e da denúncia: retrato de um ser humano tantas vezes joguete de pulsões que não controla; denúncia de uma sociedade em que imperam relações de dominação e de opressão entre (intrinsecamente) iguais em dignidade e em direitos. Circunstância em que, mais do que denunciar o escabroso em literatura, urge denunciar o escabroso da sociedade.

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[1] O Satiricon, Petronio, Livros de Bolso, Europa-América, pp. 93,94.

“Não se sabe com exactidão quem é esta personagem [Petronio]. Considera-se, contudo, geralmente, que se trata de C. Petronius Arbiter, um familiar de Nero, que esteve implicado na conjura de Pison e se suicidou em 65 d.C.” R. Morisset, G.Thévenot, Les Lettres Latines, Magnard, Paris, 1966.

O Satiricon tem perto de dois mil anos e é, no dizer de Jorge Sampaio (Prefácio à edição de O Satíricon em Livros de Bolso da Europa-América, p. 8), uma “história picaresca, narrada por um dos protagonistas, Encólpio, que, na companhia de Ascilte e Giton, dois jovens tão depravados como ele, percorre diversas províncias do império [romano]”. Também R. Morisset e G. Thévenot (op. cit., p. 984), que consideram “o Satiricon, a despeito das obscuridades e das vulgaridades que contém, […] uma obra de arte esmerada, uma das mais directamente acessíveis ao gosto moderno”, o classificam como “romance picaresco”, “romance de costumes” e “romance realista”, chamando contudo a atenção para o facto de se tratar mais de uma caricatura do que de um retrato, dado o exagero posto no relato desta “sucessão de aventuras burlescas”. Exagerado ou não (o pendor orgíaco do império romano é conhecido), facto é que passos como aquele em que Encólpio narra o estratagema de que se serve para seduzir o filho do hospedeiro, em Pérgamo ‒ efebo, de resto, facilmente subornável ‒ dificilmente escapariam à classificação de “licenciosos”. Contudo, não é o léxico do autor que potencia a ofensa ao pudor de quem o lê. Petrónio, fosse ele quem fosse, escolhe as suas palavras com esmero e é parcimonioso no uso de termos menos convenientes; são as interacções das suas personagens que logram esse desiderato.

[2]  A Literatura Erótica, Jean-Jacques Pauvert, Teorema, Lx.ª, 2001, pp. 7 e 8

[3] História da Literatura Erótica, Alexandrian, Círculo de Leitores, 1991, p. 6

[4] Respectivamente, por J.-J. Pauvert, na obra citada, e por Maria Alzira Seixo, em Discursos do Texto. António Guerreiro, no texto “O Anjo da pornografia” da sua “Estação Meteorológica” (sobre Valter Hugo Mãe), Ípsilon de 3 de Fevereiro de 2017, parece atribuir a fórmula a Robbe-Grillet; em crónica intitulada “O patriotismo dos outros”, Ípsilon de 29 de Dezembro de 2017, António Guerreiro refere uma outra possível autoria, a de Breton.

[5] Philip Roth, O Complexo de Portnoy, Leya, 2010, pp. 162, 163

[6] Nabokov, Vladimir, Lolita, Abril/Controjornal/Edipresse, p. 124

[7] Idem, p. 6

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