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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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O POEMA TRISTE DE DEUS, de Fernando Cabrita, ou A LUCIDEZ DO PADRE ETERNO


O poema triste de Deus.jpg

"O Padre Eterno não está velho, está morto. Morto e enterrado. Para que vais tu, poeta, reabrir o sepulcro fechado há séculos […]?” Desta pedrada foi alvo Guerra Junqueiro que, no prefácio à 2.ª edição de A Velhice do Padre Eterno, responde: “Morreu o Padre Eterno? Não. Apesar de contar seis mil anos de idade e de ter já feito, à cautela, dois Testamentos, esse velho Sr. Deus dos Exércitos está ainda muito bem disposto a enterrar-nos a nós todos e aos nossos descendentes, durante esta meia dúzia de séculos mais chegados […]” (1). É de supor que Fernando Cabrita comunga da mesma opinião, e tem razão, porque esta criação humana tem mais fôlegos do que os sete do gato. O nosso apego à fantasia e a tendência para a diluição de fronteiras entre o sonho e a realidade deve vir já do erectus, se não mesmo do habilis, e o sapiens não descartou a herança. Daí, a importância de reabrir o sepulcro e de malhar no defunto. Sem dó nem piedade.

Feita a observação, passemos ao “poema triste”. Não é um carvalho este deus desconhecido que Fernando Cabrita nos dá a conhecer numa edição bilingue (castelhano e português) da Asociación Cultural GARVM. E também não é aquele com que o jacobinismo do poeta de Freixo de Espada à Cinta acirrou o debate religioso nos finais do século XIX, ainda que lhe possamos encontrar uma ou outra afinidade. O deus deste poema, menos triste do que o autor nos quer fazer crer, está tão próximo das suas criaturas que o ateu mais empedernido não desdenharia com ele travar um debate de ideias ou até convidá-lo para jantar. Mas entremos no pormenor.
O “Poema Zero” dá o mote e serve de aviso à navegação: o que aí vem é pouco menos do que impróprio para leitores desprevenidos, sobretudo aqueles que mantêm o hábito do santo sacrifício da missa, e iria concitar o fogo e a fúria do Tribunal do Santo Ofício, se o Marquês o não tivesse devidamente encaminhado para o Index.

Transcrevo:

Da solidão de deus.
E disse deus: meu deus, meu deus, meu deus!
Quem abraçarei no Inverno?
A que ouvido sussurrarei poemas tontos de amor?
A que pés deporei des perles de pluie
venues d’un pays où il ne pleut pas?
A quem, meu deus, a quem cantarei ne me quitte pas?

Poema de um deus solitário e como que ressabiado (“Raios partam a eternidade e quem nela ande!”, p. 52), este poema revela-nos, sem embargo, um deus honesto e detentor de uma notável capacidade autocrítica. Se o seu vocabulário, pontualmente, descamba para um registo mais próprio daquele que conhecemos em varinas, marçanos, carroceiros e outros profissionais habitualmente referenciados como hábeis propaladores de impropérios e interjeições que as gramáticas escolares não recenseiam, isso deve-se apenas ao facto de este deus levar a sua honestidade ao ponto de partilhar com as suas criaturas os sociolectos que o livre arbítrio lhes permitiu criarem. A título de exemplo:

“Naquele tempo disse deus, pousando os halteres:
Não me aborreçam nem me peçam parábolas ou
sentenças do alto.
Estou muito cansado;
e doem-me os abdominais.
e os glúteos.
É mais fácil a um rico entrar no reino dos céus
que a um deus
fazer 100 estiramentos nesta merda do GAP.
Puta que pariu o tipo que inventou a coisa…” (p. 24)

Mas não se pense que este deus tão nosso semelhante (perdoe-me, leitor educado, tão abusiva e ofensiva generalização) debita permanentemente considerações de teor tão rasteiro, ou não fossem das partes baixas os músculos citados. Não. Fernando Cabrita não faria a tão sublime e transcendente personagem a injustiça de lhe atribuir um léxico tão retintamente vicentino e preocupações de ordem tão egoisticamente material. Pelo contrário, o Criador de que o autor nos dá vibrante testemunho apresenta-se-nos supinamente consciente da sua condição de humilde criatura, que não de criador, e superlativamente lúcido das suas imperfeições e lacunas, alguém tão capaz de se entregar aos pequenos prazeres da vida como cada um dos seus criadores terrestres e tão crítico dos seus acríticos seguidores que pede meças ao humanista de Roterdão e a todos os que a este último seguiram as pisadas não só já na denúncia da vacuidade dos teólogos, mas potenciando-as ainda na apologética do ateísmo. Atente-se nestes excertos:

“A minha vida é muito sossegada.
Também passo muitos dias no café do Mike,
a olhar as vastas planícies do céu,
[…]
A verdade é que em muitos dias acordo
com um mau sabor na boca,
um ácido fremente de dias e anos desperdiçados
a moldar Mundos,
e sinto entre os dentes vestígios de planetas
que ficaram por criar,
e por vezes digo coisas sem sentido,
talvez porque ainda esteja mal desperto
ponho-me à janela dos céus e proclamo,
enquanto me espreguiço.
Toda a nudez será castigada!
Não cobiçarás a mulher do próximo!,
e sinto que cada palavra vem de mim com
o rugir de uma roda dentada,
e em verdade vos digo que no meu particular
paraíso existe
um fidelíssimo sistema de som que amplifica
cada frase, cada sentença.
[…]” (pp. 8 e 10)

Não. Definitivamente. Este deus até manda pôr a mesa às lagartas e cobrir a Terra “de um verde verde até mais não” (p. 18), porque “ainda que nada do que [conheçamos] permaneça […] sempre a primavera retornará, incólume e serena” (p. 20) “e nunca pensará ela que há outro deus que não o / seu rumor de abelhas / e o seu marulhar de arroios. / E nunca falará em nome de qualquer deus / que não no seu próprio nome / transitório e terno (2) . Nunca falará em outro nome que não esse.” (p. 22) Um deus assim é um deus que vai connosco à bola; por outras palavras, é um deus que recusa a mistificação da sobrenaturalidade e que manda a metafísica às urtigas. E, porque se humaniza, ganha o direito ao nosso convívio.

É verdade que ele se confessa orgulhoso “e vaidoso, pois como não. / E contente e agradecido, evidentemente, / por que [lhe atribuamos nós outros], criadores da [sua] divina criatura, / que seja [ele] o autor do mundo e das regras que o / conformam […]” (p. 58). Fugaz contentamento, contudo, logo a seguir contrariado pela lucidez divina: “cada passo que dais na descoberta do mundo / é uma ruga na minha face a cavar-se, / e uma ideia de deus que se desvanece, / e uma oração a menos nos lábios de alguém. […] Esse que fui, agigantado e duro, / imprevisível e cru, / borbulha hoje nestas pipetas e nestas lamelas.” (pp. 62 e 64) Até que “um dia [talvez depois de volvida a tal meia dúzia de séculos mais chegados] vós todos percebereis quem é a Criatura. / E quem é o Criador.” Tamanha lucidez, tamanho desprendimento, tamanha honradez quase nos levam a crer que Deus existe.

*

Outro poema integra o volume: “Porque se apagaram as luzes”. Se o primeiro é “poema triste”, este poderia o autor tê-lo adjectivado de “deslumbrado”: “Porque se apagaram as luzes / apenas porque se apagaram as luzes num frágil instante do Tempo, / o meu espírito deslumbrou-se para sempre” (p. 94). De facto, no primeiro, é Deus quem profere um discurso laudatório do percurso trilhado pelo Homem num mundo admirável, mas este outro constitui um hino panteísta à grandiosidade do Universo e à aventura humana. O qualificativo de “panteísta” (até o recurso à prosopopeia – p. ex., na pág. 88, “as esferas distraídas” – dá alguma legitimidade ao adjectivo) deve, aqui, ser entendido numa acepção arreligiosa, ou, melhor dizendo e evitando a aparente contradição, como sinónimo de imenso respeito pelo mundo que habitamos e pela extraordinária pegada cultural que de nós faz émulos daquele Deus.

É um apagão banal com a duração de alguns minutos, ocorrido a 29 de Janeiro de 2018, que devolve ao poeta “o céu da [sua] infância […]”, mas “também o céu de todas as infâncias / incluindo a infância do mundo” (p. 70). Porque se apagaram as luzes, foi possível voltar a ver a Luz, a Luz maiúscula, aquela que ilumina o percurso do homem na Terra, pretexto para uma revisitação/inventário da cultura humana, espelho da harmonia universal.

A riqueza lexical e a multiplicidade das referências culturais conferem ao poema a feição de uma oração de sapiência. Com efeito, Fernando Cabrita verbaliza poeticamente a emoção que sempre suscita no homem culto a grandiosidade da aventura humana e a comunhão com os seus semelhantes: “Como, pergunta-me de dentro a alma inquietada, / como puderam esses navegadores antigos / dispersar o mar?” (p. 86)

Sentimento de comunhão profunda com o homem colectivo de sempre e de todos os lugares, “espíritos limítrofes do que é divino, / aventureiros do Futuro” (p. 96), o que acaba por nos remeter para uma forma de religiosidade, entendida em sentido etimológico de ligação ao Outro, um Outro que nos transcende na medida em que se define pela totalidade da espécie: “Convosco sou um desses anónimos marinheiros / de Cortez abismados de imenso quando nos picos de Darian.” (p. 106). O deus de F. C. é a Humanidade, tópico da sua poesia, já bem patente em O Livro da Casa (3) .

Esta imperfeita recensão incorreria em imperdoável erro se omitisse uma referência de carácter político: a iluminação pública que, ao apagar-se, permite ver “claramente […] o que jamais / poderíamos ver” (p. 76) tem neste poema a carga simbólica de uma sociedade assente na ganância, no lucro, na escravidão, na agiotagem, na usura. Por isso, apagando-se, permite ver “tudo o que se obtém pelo sonho / e pela simples observação dos montes e das águas, / tudo o que se não obtém pela ganância, / pelo lucro, pela escravidão, / tudo o que se não obtém pela agiotagem” (p. 80). De resto, “ninguém veio da usura […] e nenhum lintel de ouro nos dá o destino que sonhávamos / tão pouco a formidável emoção cósmica de uma lua plena / e a surpresa de um cometa audaz” (p. 82). A incompatibilidade entre os mundos do sonho e do belo, por um lado, do dinheiro, por outro, fica, assim, claramente expressa. Bem como a aspiração do poeta a esse mundo belo, de sonho, de comunhão fraterna entre homens iguais. Como diz a bela epígrafe de Mário Quintana que encima o poema,


Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

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1. Guerra Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno, Livros de Bolso Europa-América, pp. 19 e 24
2. O tradutor espanhol traduziu “terno” por “terrenal” (terreno). Creio que o fez criteriosamente, corrigindo provável lapso.
3. https://tambemdeesquerda.blogs.sapo.pt/o-livro-da-casa-de-fernando-cabrita-um-68440