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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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REFLEXÃO MUITO BREVE SOBRE ARTE E CRÍTICA

REFLEXÃO MUITO BREVE SOBRE ARTE E CRÍTICA

Há relações inevitáveis entre o ser social do escritor e a sua prática literária. As tendências conhecidas como “arte pela arte”, ou “arte pura”, que pretendem arredar das expressões artísticas as preocupações sociais, traduzem uma opção política vincadamente alienante. Uma arte que se desliga do homem concreto e das suas preocupações materiais para se limitar a vogar nas regiões etéreas da fantasia é uma arte que se põe, objectivamente, ao serviço do statu quo e que abdica de desempenhar um papel na caminhada da humanidade para um futuro melhor. Não que a arte deva subscrever um programa político, ou sequer cingir o seu foco às problemáticas sociais. Isso constrangê-la-ia a alienar parte substancial da sua função encantatória e das virtualidades que encerra no domínio da defesa emocional, relativamente ao impacto de uma realidade demasiado dura para ser enfrentada sem criteriosas pausas. Neste sentido, a arte pode mesmo avantajar-se à forma mais tradicional da fuga, que é o compromisso neurótico proporcionado pela religião. Ela deve, contudo, saber interpretar os interesses mais legítimos da parcela de humanidade que esteja ao seu alcance e a eles vincular-se. Neste sentido, uma arte poética ou romanesca que, de forma clara ou velada, intenta promover valores deletérios, seja em termos políticos, seja em termos morais, e, no caso da arte pela arte, parecendo mesmo ignorar o que sejam valores, excepção feita do esteticismo (a rebusca formal é tudo o que conta) é uma arte objectivamente ao serviço da manutenção de relações de dominação económica, social e política de uma parte da sociedade sobre outra (para não usar a terminologia mais corrente).

A crítica dominante, a que sacrifica aos deuses do neoliberalismo, verá nesta tese uma óbvia contaminação de preconceitos políticos herdados de eras volvidas; tê-la-á por execranda. Reservo-me o direito de pensar que a crítica institucional defende teses contaminadas por uma ideologia que faz uso do termo “liberdade” como santo-e-senha para justificar todas as atrocidades – o que tenho por execrando.

 

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