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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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Santo Futebol!

Os sportinguistas afirmam o seu sportinguismo com o mesmo fervor com que um cristão afirma o seu cristianismo, e, em ambos os casos, estamos perante o sentimento religioso: o Clube encerra, no sentir dos adeptos, o mesmo poder mobilizador e agregador que Deus para os crentes; num e noutro caso, a abstracção (imaterialidade de Deus ou da mística do Clube) é materializada na instituição (Igreja, com os seus templos, sacerdotes e pessoal auxiliar; Clube, com o seu estádio, dirigentes e demais pessoal). Em ambos os casos, os rituais são para se cumprir: entoar os cânticos devidos, exprimir verbal e gestualmente a sinceridade da crença, celebrar as efemérides – outros tantos signos integrantes da semiótica da fé.

Os jogadores são uma espécie de anjos – quando vencem o campeonato, assim transportando os adeptos para o Céu da vitória –, ou demónios, quando os arrastam para o Inferno da derrota; o treinador é o arcanjo, que orienta a conduta dos jogadores, e o Presidente do Clube é, pois claro, o Papa, representante máximo da instituição, com a diferença de que raramente os fiéis adeptos lhe reconhecem a infalibilidade dogmática do Papa da Igreja em matéria de fé. Menos submissos do que os fiéis da Igreja, os fiéis do Sporting, do Benfica ou do Porto acreditam mais na infalibilidade de cada um deles, e são lestos a despachar anátemas e fatwas contra papas, anjos e arcanjos, sempre que a maldição das derrotas sucessivas se abate sobre os seus corações destroçados.

No futebol como na Igreja Universal, um cisma de cariz reformador/protestante distancia aqueles que adoram imagens, santos de pau ou de barro, cachecóis, bandeiras e toda a espécie de símbolos, dos puritanos que, fazendo o elogio (irónico) da loucura futebolística, vivem a sua mística clubista à maneira luterana, de forma recatada, no mais íntimo das suas almas esféricas.

Entretanto, se as manifestações de fervor religioso, na Europa, pelo menos, já não nos dão o espectáculo degradante de outrora (até os joelhos ensanguentados de Fátima cederam às joelheiras em pista de tartã), já o fervor dos adeptos só é ultrapassado pelos católicos filipinos que se fazem crucificar a cada Páscoa ou pelos muçulmanos xiitas que se autoflagelam e açoitam com correntes.

Contudo, o que as celebrações da vitória sportinguista sugeriram mais percucientemente, ontem, foram as cerimónias que levam milhares de hindus, em plena pandemia descontrolada no país, a banhar-se promiscuamente nas águas do rio sagrado. Parece que até o Ganges resolveu passar por Alvalade.

 

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