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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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SEMÁFOROS E JUSTIÇA

Há uma curiosa semelhança entre o funcionamento dos semáforos que passam a vermelho quando se excede o limite de velocidade e o funcionamento da sociedade em que vivemos.

Acontece-me com frequência ficar retido num daqueles semáforos, não por ter excedido o limite de velocidade, mas, pelo contrário, porque, tendo-o respeitado, alguém me segue a velocidade mais elevada e passa ainda com o verde. Com isso, lucra o prevaricador e é penalizado o cumpridor. Como a perfeição não é qualidade que eu possa reivindicar, confesso que também já me aconteceu cometer idêntica transgressão. Empenho aqui, todavia, a minha palavra de honra: foi por distracção. Ora a justificação da inadvertência não é coisa que me esteja reservada. Admito, por isso, que possa acontecer o mesmo com qualquer outro cidadão, tal como eu, incapaz de cumprir a sua caminhada existencial sem que se lhe possa apontar o mínimo deslize. Mas também acredito que haja alguns condutores, ainda menos isentos de imperfeições, que o fazem deliberadamente, sabendo que seguirão em frente, deixando os cumpridores retidos. Uma vez por outra, talvez aconteça um agente camuflado nos arbustos aplicar ao infractor a merecida coima.

Feita a observação com as devidas advertências, o que mais importa é pôr agora em evidência a estreita semelhança entre o que se passa com estes semáforos e o que se passa com a nossa sociedade.

Não é segredo para ninguém que, todos os dias, um sem-número de honestos cidadãos cumpridores da lei e dos ditames da decência penam no seu dia-a-dia laborioso para assegurar a sua difícil sobrevivência, pagando as suas contas e esforçando-se por nada ficar a dever a ninguém. Eles até podiam invocar a inadvertência, para omitirem o pagamento de uma factura aqui, outra acolá; podiam mesmo prevalecer-se da pouca sorte de terem nascido pobres para justificar o eventual assalto a uma instituição financeira ou a conivência de amigos bem colocados para transaccionarem influências e coisas do género – mas não! Preferem permanecer fiéis a normas de conduta que lhes foram incutidas e a que eles conferem o carácter categórico do imperativo kantiano. Ao mesmo tempo, todos os dias (ou quase) somos bombardeados com notícias de banqueiros, ministros, CEOs de grandes empresas, dirigentes desportivos, altas individualidades (como se usava muito dizer), gente importante, enfim, que desrespeitou, não o limite de velocidade, mas os limites da legalidade, da honestidade e da decência, durante anos, usufruindo de enormes somas de dinheiro e de toda a espécie de bens e regalias, sem que tenham sido retidos ou, neste caso, mais propriamente, detidos. Por via de regra, só depois de terem demoradamente usufruído daquilo que lhes não pertencia são instados a prestar declarações, em processos que se arrastam o tempo necessário para que atinjam o fim do seu trajecto existencial sem grande perturbação do seu modus vivendi.

Parece ficar assim demonstrada a discutível eficácia dos semáforos. E a da justiça. Não tanto aquela cuja administração incumbe ao sistema judiciário, mas antes a justiça inerente à natureza do sistema tout court. Como, em relação a esta última, não vejo qualquer possibilidade de correcção, dentro do actual quadro sociopolítico, sugiro às entidades competentes que revejam o funcionamento dos semáforos: uma hipótese seria retirar ao vermelho a sua carga proibitiva e fazer dele a cor indicativa de que se pode avançar.

Declaração de interesses: o vermelho é a minha cor preferida.

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