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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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TABU E IMPERATIVO CATEGÓRICO

Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão: porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão. Êxodo, 20, 7

É em Totem e Tabu, capítulo/ensaio II, que Freud identifica o tabu dos povos primitivos com o “imperativo categórico”, o dever kantiano.

«Trata-se […] de toda uma série de restrições a que se submetem esses povos. Isso ou aquilo é proibido, não sabemos porquê e também não lhes ocorre fazer a pergunta; eles apenas as cumprem como algo óbvio, e estão convencidos de que uma transgressão será punida automaticamente, de forma severa. Há relatos confiáveis de que a inadvertida desobediência a essa proibição foi realmente punida de forma automática. O inocente infractor – que comeu de um animal para ele proibido, por exemplo – fica profundamente deprimido, aguarda sua morte e então morre de facto. A maioria das proibições diz respeito à capacidade de fruição, à liberdade de movimento e comunicação. Em muitos casos parecem dotadas de sentido, indicam evidentemente certas abstinências e renúncias; em outros casos são de teor incompreensível, contemplam detalhes sem valor, parecem de natureza inteiramente cerimonial. […] é denominado tabu […] algo simultaneamente sagrado, acima do habitual, e perigoso, impuro, inquietante.

«Nessa palavra e no sistema que ela designa se exprime algo da vida psíquica, algo cujo entendimento ainda não está ao nosso alcance. Antes de tudo, parece difícil nos aproximarmos desse entendimento sem examinar a crença em espíritos e demónios, peculiar a essas culturas tão remotas.

«Mas por que devemos voltar nosso interesse para o enigma do tabu? Acho que não apenas porque todo problema psicológico é digno de uma tentativa de solução, mas também por outros motivos. Suspeitamos que o tabu dos selvagens polinésios não se acha tão longe de nós como pensávamos inicialmente, que as proibições morais e tradicionais a que obedecemos poderiam ser essencialmente aparentadas a esse tabu primitivo, e que o esclarecimento do tabu lançaria luz sobre a obscura origem do nosso próprio “imperativo categórico”.»

***

Está fora de questão abordar aqui e agora toda a extensão dos quatro ensaios que Freud reuniu sob o título Totem e Tabu. O seu alcance e profundidade são tais que o leigo se sente compelido, em caso de necessidade, a fazer pouco mais do que a sua síntese vagamente comentada. De resto, o intuito do post é apenas o de insinuar (!…) uma aproximação do conceito de tabu à reacção tantas e tantas vezes verificada, de cada vez que se aborda a problemática da crença religiosa numa rede social. Dir-se-ia que não é apenas incómodo que o crente sente, ao ver a sua crença posta em causa por ateus e outros hereges; é, antes, um sentimento híbrido e contraditório. Por um lado, ele experimenta e exprime solidariedade activa com o seu Deus, cuja existência vê ser posta em causa pelo estranho; por outro lado, sente que, se não o fizer, estará como que a pactuar com uma força demoníaca e, por via disso, a desrespeitar os Mandamentos da Lei de Deus; por outro lado, ainda, e como consequência dos anteriores, o crente sente, provavelmente e em casos extremos, o desejo de fulminar o descrente, embora renuncie facilmente ao seu eventual ímpeto destruidor por receio de incorrer na desobediência ao quinto dos Dez Mandamentos.

Discutir a crença é tabu e, para o crente, o dever de honrar o seu Deus é imperativo, incompatível com a ligeireza do debate numa rede social. Apenas em situações formais, claramente definidas, e garantida a presença de “autoridades” na matéria, quer do lado da crença quer do lado oposto, o crente aceitará pacificamente a discussão, sendo que a presença de “autoridades” em matéria religiosa funciona como factor caucionante e desculpabilizante da sua própria participação, ainda que como mero espectador.

Tabu e imperativo categórico encontram, assim, no debate institucional reservado às “autoridades”, numa espécie de retorno às fronteiras impostas pela escolástica medieval, o seu ambiente. Ao “magister” inimigo de Deus tolera-se a presença e o discurso subversivo, desde que diante dele se encontre o “magister” canónico, advogado de defesa da boa doutrina. Àqueles que, como o autor do post, se apresentam despojados das insígnias do conhecimento certificado e se aventuram a fundar as suas congeminações em citações de cientistas de que talvez apenas tenham um conhecimento superficial, denega-se a legitimidade imprescindível num debate que ultrapassa os estreitos limites da razão humana e entra pelos terrenos metafísicos de que apenas a fé (com a sua dispensa das leis a que o confronto com o mundo físico nos habituou) é dona e senhora.

Enfim, se o imperativo categórico kantiano é a lei moral em que se fundamentam os preceitos morais, o tabu é, no debate religioso e para muitos crentes, a lei que penaliza as violações da sacralidade. Assim como o dever moral se não compadece com a consideração de circunstâncias conjunturais que visem, por exemplo, o afastamento de consequências indesejáveis, também o tabu é, no debate religioso e para muitos crentes, a expressão de uma restrição à violação inaceitável da sacralidade, já que esta se situa num patamar que, como a lei moral fundamental, é insusceptível de compaginação com a problematização conjuntural ou circunstancial. A sacralidade é o imperativo categórico do crente; o tabu é o mecanismo que assegura a preservação da integridade da crença e a manutenção do equilíbrio psíquico do seu detentor (ainda que seja discutível associar compromisso neurótico com a realidade a equilíbrio psíquico…).