Sábado, 31 de Março de 2018

No ensaio O Sagrado e o Profano – a Essência das Religiões[i], Mircea Eliade reflecte sobre a percepção que do tempo têm o homem religioso e o homem não religioso. A dada altura, escreve: “o homem religioso vive em duas espécies de tempo, a mais importante das quais, o Tempo sagrado, se apresenta sob o aspecto paradoxal de Tempo circular, reversível e recuperável, espécie de eterno presente mítico que o homem reintegra periodicamente pela linguagem dos ritos. Este comportamento para com o tempo basta para distinguir o homem religioso do homem não religioso: o primeiro recusa-se a viver unicamente no que, em termos modernos, se chama ‘o presente histórico’; esforça-se por tornar a unir-se a um tempo sagrado que, de um certo ponto de vista, pode ser homologado à ‘Eternidade’. […] Para um homem não religioso esta qualidade trans-humana do tempo litúrgico é inacessível. Isto é o mesmo que dizer que para o homem não religioso o Tempo não pode apresentar nem rotura, nem ‘mistério’: o Tempo constitui a mais profunda dimensão existencial do homem, está ligado à sua própria existência, portanto tem um começo e um fim, que é a morte, o aniquilamento da existência.”[ii]

 

Em festividades como a do Natal, o homem religioso “reintegra” seguramente o seu Tempo sagrado “pela linguagem dos ritos”. A mensagem bíblica é-lhe familiar: a divindade existe efectivamente, ainda que só a alguns se revele, e o Messias fez-se homem para redimir a humanidade. Celebrando a vinda do Menino com a devida solenidade, o homem religioso une-se a esse tempo sagrado da chegada do Redentor e vive-o com intensidade. As manifestações de júbilo a que o homem religioso se entrega são disso testemunho e prova de que “o homem religioso crê que vive então num outro tempo, que conseguiu reencontrar o illud tempus mítico.”[iii] Como é óbvio, na Páscoa, ocorre idêntica “reintegração” do Tempo sagrado, tratando-se então de celebrar a ressurreição de Cristo.

 

Para o homem não religioso, alheio à circularidade do tempo sagrado, a festividade é entendida como tentativa de presentificação cíclica do que ficou num tempo volvido e já só é susceptível de recuperação através da memória, donde o seu alheamento em relação ao júbilo manifestado pelo homem religioso. Mas que acontecerá com a comemoração[iv] de acontecimentos históricos, quando mesmo o homem não religioso como que se transporta para o tempo mítico de uma realização que o empolga, ou, em sentido inverso, presentifica um tempo volvido? Ele sabe que esse tempo é irrecuperável, o que parece não ser impedimento a que o reviva intimamente. Postulemos que tal experiência resulta de uma certa forma de “religião”: o homem não religioso mas detentor de fortes convicções acaba por se sentir “religado” a todos os seus correligionários, numa relação horizontal, de modo algo semelhante ao do homem religioso, só que, esse, numa relação vertical para com Deus. Este postulado redunda, como se vê, na assunção de que mesmo o ateu é “religioso”: decerto, não crente em Deus, mas crente no sentimento de pertença ao todo da humanidade. Ora a humanidade, entendida quer como conjunto de todos os seres humanos, quer como o conjunto dos atributos presentes em todos nós, acaba por corresponder, e de maneira progressivamente mais perfeita, à ideia de Deus omnipresente, omnividente, omnisciente e omnipotente. O que ainda lhe falta de omnisciência, omnipotência, etc., está a ser cada dia conquistado pela ciência, pela técnica, pelo saber. Temos, assim, que o homem participa desta divindade, que lhe é consubstancial pelo simples facto da sua pertença ao todo. Por outras palavras, se o homem não é Deus, é-o a humanidade.

 

[i] Livros do Brasil, Lx.ª, s/d.

[ii] Pp. 82-84

[iii] P. 98

[iv] Note-se que, para o homem religioso, “a festa não é a comemoração de um acontecimento mítico (e portanto religioso), mas sim a sua reactualização.” Op. Cit., p. 93



publicado por tambemdeesquerda às 18:51
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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