ÚLTIMAS VONTADES
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!
Mário de Sá-Carneiro
Tendo a acreditar na minha imortalidade, a julgar pela evidência de ter sobrevivido a 75 anos de vida, mas receio ter um dia de me render a outra evidência – a de ter deixado de ser, ainda que seja improvável evidenciá-lo. Nesse dia, único e solene, como convém, para além de uma lágrima furtiva no rosto de alguém, providencie-se o conjunto de medidas que passo a enunciar com as respectivas motivações:
1.º, Que me seja proporcionado um banho quente, como antídoto para o rigor mortis. Com Dove men extra fresh. Cadáver, sim, mas relaxado e asseado.
2.º, Que me vistam de fato e gravata, com nó windsor, adquiridos no comércio local. Ao menos uma vez na morte, quero ir decente e rasteirar a grande distribuição.
3.º, Que me plantem um charuto na boca. Mas havana, por respeito pelas minhas convicções tabágicas.
4.º, Que me tragam um padre ortodoxo grego tendo em vista a oração fúnebre. Para o latim de Igreja bastou estar vivo.
5.º, Que se incumba um deputado de convicções liberais de fazer o elogio fúnebre do mercado de valores.
6.º, Que se recolham as cinzas num cinzeiro. Resistente à chuva, em caso de intempérie; por tempo seco, basta uma urna. De voto. À esquerda.
7.º, Que se entoe uma marcha fúnebre, mas não a de Chopin, que me dá logo vontade de rir. Ou um Prelúdio de Bach. Ou o Let it be, dos Beatles. Mas, sobretudo, que não se esqueça a Internacional. “Não há machado que corte a raiz ao pensamento” nem há fogo que consuma as ideias que acalento.
8.º, Nada de RIP. Que se ponha na campa: VIP.
Agradecido.