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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

Um artigo magistral de Cavaco Silva

 

Aníbal Cavaco Silva, que, na longa noite que antecedeu a madrugada libertadora de Abril, se notabilizou pela inquebrantável coragem com que combateu a ditadura fascista, publica hoje, no Expresso, um admirável artigo em que,”sem margem para dúvidas”, seu timbre de sempre, denuncia a “estagnação económica e o empobrecimento” a que nos têm conduzido sucessivos Governos socialistas”, dos quais os últimos contaram com o indesejável apoio dos partidos de “extrema-esquerda”. Com efeito, “o combate à pobreza nunca foi uma prioridade efectiva do Partido Comunista e do Bloco de esquerda”.

Prevê o insigne Professor que, a seguirmos neste rumo suicidário, rapidamente sejamos ultrapassados por democracias tais como a Polónia e a Hungria, entre outras vítimas “de décadas de sujeição ao estatismo comunista”, mas, sobretudo, lamenta os “salários baixos, salários insuficientes para reter jovens com ambição de subir na vida, […], desigualdades sociais e elevado nível de pobreza, cuidados de saúde de baixa qualidade para quem não dispõe de recursos para acesso à medicina privada e degradação do ensino público.” Tudo realidades imensamente distantes dos elevados padrões de qualidade a que nos habituara durante a vigência dos seus governos e que lhe valeram a veneração dos trabalhadores portugueses, em geral, e dos bancos, em particular, bancos esses que, sem o precioso concurso do estadista e dos continuadores da sua obra, v.g., Passos Coelho, Maria Luís, Paulo Portas, Assunção Cristas, entre outros, se viram impossibilitados de levar a cabo a sua missão humanitária, uma vez que “não dispunham de recursos para financiar as empresas e as famílias”, não obstante disporem deles para fins que o autor não refere – por falta de espaço ou lapso de memória.

A calamitosa situação atrás descrita foi, em boa hora, invertida pelo governo Passos/Portas já referido. A benéfica inspiração recebida do autor do artigo explica que este Governo se tenha distinguido, como é do conhecimento público e todos os Portugueses recordam, pela “criação de emprego”, bem como pela “reposição de salários e pensões atingidos pela situação de emergência financeira herdada do Governo socialista”.

O estadista verbera, depois, o clima de pavor instalado na sociedade portuguesa: medo de criticar o Governo, medo de perder o emprego, medo da privatização dos transportes públicos e consequente medo dos seus trabalhadores, sempre que pensassem em greves desestabilizadoras da tranquilidade social. Enfim, no seu conjunto, o retrato de uma “democracia deficitária, com falhas, claustrofóbica, amordaçada.”

Malgrado o que alguns mal-intencionados críticos lhe apontaram, em tempos, como défice cultural (o número de cantos dos Lusíadas era então matéria para a qual a esposa estaria mais habilitada a responder), decorre da leitura do artigo que ACS enriqueceu a sua bagagem, neste domínio, com o conhecimento do princípio de Peter: «Para algumas pessoas, de coluna vertebral mais frágil, o encosto ao Governo socialista é visto como a melhor posição para subirem além do princípio de Peter.» Documentável também, no artigo, é uma insuspeitada atracção pelo género policial: «Filmes policiais têm mostrado como uma pessoa amordaçada consegue emitir gritos de socorro.»

O comentador conseguiu, graças à leitura do precioso artigo, emitir vibrantes gargalhadas. Agora, sonha com uma mordaça, ou rolha, estopa ou qualquer outro meio de calafetagem que o ponha a salvo dos dislates professorais, pelo menos enquanto humoristas bem mais qualificados nos proporcionarem momentos de boa disposição.