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Também de esquerda

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

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Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.

UMA ALMA EM BUSCA DE POISO

Uma amiga, que me sabe ímpio e a quem me queixei do calor infernal que nos assola, aconselhou-me benevolamente a converter-me, a fim de escapar ao castigo térmico: «Fernando, tente aguentar-se.  Converta-se e sairá do inferno – diz-me ela». Não este inferno, que é objecto de estudo e previsões do IPMA, mas o que nos espera a alguns de nós, depois do trânsito terreno. Ora convertido estou eu, há muito. Sempre que vejo alguns comentadores da nossa praça televisiva, imediatamente invoco a preciosa ajuda divina: - “Meu Deus!” O mesmo acontece quando me entram pelos ouvidos dentro certas opiniões desconchavadas que tenho de suportar com paciência cristã: - “Santo Deus!”

Talvez a minha invocação tenha um valor sobretudo interjectivo (de interjeição). É como dizer “Bolas!” ou “Chiça! Ou “Apre!”, esta última conotada com a terceira idade, por causa da associação com o mesmo nome. Mas não deixo de invocar o santo nome do Senhor, e, contrariamente a Voltaire, que dizia: “Cumprimentamo-nos, mas não nos falamos”, eu falo com ele, embora naqueles termos lacónicos que referi.

Voltando à conversão: qualquer que seja o entendimento que o Supremo Tribunal do Juízo Final fizer do meu comportamento terreno, não escaparei a uma passagem pelo Inferno. Basta um breve exame de consciência para me certificar.

Chega a minha alma lá abaixo (que o caminho estreito do Céu é ascendente, mas para o Inferno a via é larga e descendente), e, chamuscada como vai, por via da cremação, o Mafarrico franqueia-lhe imediatamente a entrada da recepção, devidamente climatizada. Pergunta-lhe se tem passe verde e manda-a sentar num mocho mal-amanhado, talhado a golpes de canivete. Abana a cauda e os cornos, e pergunta-lhe de chofre:

- Diz-me lá que pecados cometeste em vida!

A minha alma titubeia, trémula e enxofrada, e cicia:

- Em jovem, teria eu uns dezassete anos, que é uma idade do Diabo! ... Peço perdão: é uma idade tramada! Apaixonei-me por uma actriz loura, americana, novinha e bonita como um anjo, como aqueles que só há lá no Céu …. Peço perdão, novamente; bonita que nem uma chama ardente. Era amante de um milionário, milionário que tinha um filho, filho esse que se apaixona por ela e vice-versa e aquilo gera uma confusão dos Infernos. Perdão: gera um conflito intergeracional, acrescido de implicações nas relações intrafamiliares e no domínio patrimonial. Não me lembro do nome dela, nem do título do filme. Só me ficou a recordação desse amor infeliz, a que se seguiram vários outros que não vou contar, porque compreendo a Sua dificuldade em ouvir tantas almas que diariamente por aqui passam.

- Só isso?! – retruca-me o Mafarrico, com espanto.

- Bem, tenho outros pecadilhos, tudo mais ou menos venial. Não me ocorre nenhum verdadeiramente capital e que valha o tempo que lhe estou a roubar! Ah! Talvez um: fui comunista toda a vida. Aposto que esse não tem remissão!

- Ora! Como te enganas! Comunistas é o lado pra que melhor durmo. Eu até me dou bem com eles. Sobretudo desde que mandei um para o Céu – um tal Karl Qualquer Coisa – que armou aqui um alvoroço insuportável, com greves, comícios e manifestações a toda a hora.

- Ah! Sei quem é. Já ouvi contar essa história. Parece que Deus também não o suportou e finou-se.

- É isso mesmo. Eu fui à missa do sétimo dia e trouxe o Karl de volta, não fosse ele lembrar-se de apelar à união das almas oprimidas de todo o mundo e subverter a ordem sobrenatural das coisas. Aliás, ele disse-me logo que as relações de produção, aqui, são mais equilibradas do que no Céu: eu próprio, entidade patronal, me encarrego do fornecimento da energia, dou uma mãozinha sempre que alguma alma reclama assistência médica, e quando reivindicam aumentos da temperatura ou do horário de trabalho, visitas a almas amigas retidas no Purgatório, etc., assino de imediato a convenção colectiva. No fundo, acabei com as classes, enquanto lá em cima continuam com aquela corte profusa de anjos, arcanjos, querubins, beatos e santos, todos a viver à custa das pobres almas que por lá vagueiam, absortas e ausentes como doentes de Alzheimer. Portanto, já vês: que não seja por isso. Se, no Juízo Final, te deram guia de marcha para aqui, tenho de concluir que o Líder Supremo se equivocou.

E, num sussurro quase imperceptível:

– Acontece aos melhores, com tantos processos em tramitação. O teu lugar é no Céu. Vou já pôr-te a caminho, que tenho mais com que me ocupar. Tens aí o passe verde?

A minha alma não ficou lá muito feliz com a rejeição demoníaca. Neste sítio quente e seco, ela sabia, agora mais do que nunca, que ia encontrar montes de amigos e conhecidos fecundos em malfeitorias. No Céu, eram só almas puras, sem mácula alguma, insonsas e sem graça, mal-grado a Graça divina.